Em pleno coração da Barra da Tijuca, num condomínio de luxo onde o poder se disfarça de conforto, o ex-deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, foi arrancado da cama às 5h da manhã de 3 de setembro de 2025. Não por um crime comum — mas por ser o elo invisível entre a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e o Comando Vermelho. A operação, batizada de Operação ZargunRio de Janeiro, não só prendeu um político, mas desvendou uma teia de corrupção que ligava facções criminosas, policiais federais e o mais alto escalão do Legislativo estadual.
Uma prisão que abriu a porta de um sistema corrupto
A prisão de TH Joias, de 39 anos, foi apenas o começo. Na mesma tarde, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi conduzido coercitivamente à sede da Polícia Federal no Rio. O motivo? Um depoimento que, segundo ele, seria "institucional". Mas, no porta-malas do carro dele, os agentes encontraram R$ 90.000 em dinheiro vivo. Não em notas de R$ 50, nem escondidas em caixas. Em pacotes de R$ 1.000, bem organizados — como se alguém tivesse contado cada centavo. Bacellar, de 45 anos, jurou que nunca havia visto TH Joias antes de ele entrar na Alerj. "Nunca, nunca", repetiu, como se quisesse convencer a si mesmo. Mas o celular do ex-deputado falou mais alto: mensagens de voz, fotos trocadas, convites para jantares em bares da Zona Sul. Um deles dizia: "Mano, a gente precisa conversar sobre o que vai rolar na sessão de quarta." Outro, mais direto: "Eles estão apertando. Se o delegado ligar, fala que não sabe de nada."Joias, armas e o dinheiro do CV
TH Joias não era só um político com jeito de bicheiro. Era um empreendedor do crime organizado. Investigadores descobriram que ele comprava equipamentos antidrones — os mesmos usados por facções para evitar rastreamento — e os entregava diretamente a lideranças do Comando Vermelho. Também financiava a compra de armas de fogo de outros estados, usando empresas fantasmas registradas em seu nome. A PF encontrou notas de compra de munição, contratos falsos de importação e até um depósito de armas em um galpão em Nova Iguaçu, sob nome de uma empresa de segurança que nunca existiu. Mas o que mais chocou os investigadores foi o papel dele como lavador de dinheiro. Ele usava as vendas de joias — as que deram o apelido — para esconder milhões. As peças, feitas com ouro e diamantes, eram vendidas a preços exorbitantes para clientes que nunca apareciam. Na verdade, eram intermediários do CV. Um anel de R$ 80 mil, por exemplo, foi entregue à companheira do delegado federal Gustavo Steel, preso em flagrante no Aeroporto Internacional do Rio. Ele, que tinha acesso a sistemas da PF, consultou mandados contra dois líderes do CV — Dudu e Índio do Lixão — apenas 48 horas antes de ser preso. A foto dele ao lado da mulher, com o anel de TH Joias no dedo, foi o primeiro indício de que a corrupção chegava até os agentes que deveriam combater o crime.
Um sistema que vai além da Alerj
Nada disso aconteceu sozinho. Entre os 18 indiciados, estão policiais militares, um delegado federal, e até ex-secretários do governo estadual, como Alessandro Pitombeira Carracena, que já foi chefe da Secretaria de Transportes do Rio. A PF aponta que TH Joias atuava como um "corredor" entre o poder político e o poder das ruas. Ele garantia que lideranças do CV não fossem presas em operações planejadas, em troca de dinheiro e apoio em votações na Alerj. O que torna o caso ainda mais grave é o silêncio das instituições. Ninguém denunciou. Ninguém questionou. E, quando o caso começou a pipocar na imprensa, a Alerj se recusou a abrir um processo de cassação — mesmo com o ex-deputado já indiciado. Só em 26 de novembro de 2025, após pressão da sociedade e da mídia, a CPI do Crime Organizado, presidida pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES), aprovou 38 requerimentos, incluindo a convocação de TH Joias. Mas ele já está preso. E não vai poder se defender lá.Quem mais está envolvido? E o que vem aí?
A CPI também convocou autoridades de alto nível: o diretor-geral da Meta no Brasil, Conrado Leister; o presidente do Coaf, Ricardo Andrade Saadi; o secretário da Receita Federal, Robinson Sakiyama; e até comandantes da Marinha e da Aeronáutica. Por quê? Porque os recursos lavados por TH Joias passaram por contas de empresas de tecnologia, fundos offshore e até plataformas digitais. A PF suspeita que criptomoedas foram usadas para financiar operações criminosas — e que plataformas como Meta e WhatsApp foram usadas para comunicação entre facções e políticos. O que se vê é um sistema que não se limita a um político corrupto. É um ecossistema. Um sistema onde a política, o crime e a tecnologia se fundem. E onde o dinheiro sujo flui com tanta naturalidade que ninguém mais se espanta.
Por que isso importa para você?
Porque enquanto TH Joias vendia joias de R$ 50 mil, a saúde pública do Rio colapsava. Enquanto ele negociava armas, escolas públicas ficavam sem professor. Enquanto Bacellar negava qualquer contato, a violência subia 17% no segundo semestre de 2025 — segundo dados da Secretaria de Segurança. O dinheiro que deveria ir para a segurança, educação e saúde foi desviado para pagar um anel, um jantar, um voto. A PF já tem provas. A CPI já tem mandados. Mas a Justiça ainda não deu um passo firme. E enquanto isso, os outros 17 indiciados seguem livres. Ou em prisão preventiva. Ou em liberdade condicional. A pergunta que fica é: quem protege quem?Frequently Asked Questions
Como TH Joias conseguiu se manter na Alerj por dois anos sem ser investigado?
Ele usava uma estratégia de baixa visibilidade: nunca participava de votações polêmicas, evitava entrevistas e mantinha um perfil de "político discreto". Além disso, financiava campanhas de colegas da base aliada, garantindo proteção política. Investigadores descobriram que pelo menos cinco deputados receberam doações de empresas ligadas a ele, sem declaração oficial.
Por que o dinheiro encontrado no carro de Rodrigo Bacellar não foi considerado prova direta de corrupção?
A defesa de Bacellar alegou que o dinheiro era "reserva pessoal" para despesas da presidência da Alerj, como pagamento de fornecedores e deslocamentos. Mas a PF apontou que o valor — R$ 90 mil — é 15 vezes maior que o orçamento mensal autorizado para tais gastos. Além disso, não há nota fiscal ou comprovante de uso, o que torna a explicação suspeita e sujeita a nova análise do MP.
O que a CPI do Crime Organizado pode fazer agora?
A CPI pode recomendar a abertura de inquéritos criminais, pedir a quebra de sigilos bancários e telefônicos, e até sugerir a cassação de mandatos. Embora não tenha poder de julgar, seu relatório final — previsto para fevereiro de 2026 — pode ser encaminhado ao STF e ao MPF, acelerando processos. O relator Alessandro Vieira já afirmou que o caso "é um dos mais graves da história recente do Rio".
Existe risco de que outros políticos estejam envolvidos?
Sim. A PF já identificou 12 contas bancárias suspeitas ligadas a deputados estaduais e vereadores do Rio. Duas delas receberam depósitos em dias exatos em que operações da PF foram canceladas. Um levantamento do Coaf apontou que, entre 2023 e 2025, mais de R$ 12 milhões em movimentações suspeitas passaram por empresas de joalherias e importação de equipamentos eletrônicos com vínculos a políticos da base do governo estadual.
Como o Comando Vermelho conseguiu se infiltrar na Alerj?
A facção usou uma estratégia de longo prazo: recrutou ex-presidiários que se tornaram assessores parlamentares, ou filhos de membros da facção que estudaram direito e entraram no funcionalismo público. TH Joias era o ponto de ligação. Ele garantia que esses assessores não fossem investigados, em troca de informações sobre operações policiais e apoio em votações que beneficiavam os interesses do CV.
O que pode acontecer com TH Joias e Rodrigo Bacellar agora?
TH Joias já está preso preventivamente e pode enfrentar até 30 anos de prisão por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Bacellar, embora não tenha sido indiciado ainda, corre risco de ser denunciado pelo MPF, já que o dinheiro encontrado e as mensagens podem configurar receptação e obstrução de justiça. Se for condenado, perde o mandato e fica inelegível por oito anos.
Filomeno caetano
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